segunda-feira, 28 de abril de 2008

HITCHCOCK BLONDE no ACT




Se Terry Johnson, autor contemporâneo que tem produzido muito e ganhado vários prêmios na Inglaterra, dá mostras em seu texto Hitchcock Blonde que é possível pensar a dramaturgia teatral como cinema, Paulo Biscaia não o decepciona na direção. Usando recursos que se tornaram freqüentes em sua companhia Vigor Mortis (como tela vazada para projeção de vídeos que se misturam ao atores no palco), desta feita foi além e produziu um espetáculo que pode ser visto em planos diferentes de linguagem, exibindo os atores em palco como se estivessem realmente na tela de cinema.
Assisti à peça como se estivesse filmando os acontecimentos com meus olhos, já que a dinâmica de cena e a agilidade dos cortes na direção se uniram a um texto muito afeito a estas possibilidades. Interessante que, ao mesmo tempo em que vemos atuação cinematográfica e recursos de vídeo, o próprio texto fala sobre cinema, retratando uma perfeita metalinguagem.
O universo de Hitchcock emerge da história quando suas idiossincrasias de diretor perfeccionista e ao mesmo tempo reprimido em relação às emoções são revisitadas. E isso se dá tanto na narrativa em que um professor de cinema e sua aluna pesquisam rolos antigos de filmes quanto na própria interação de Alfred com uma pretendente à diva/atriz.
Interpretado por Édson Bueno, o professor de cinema Alex tem uma tara por sua aluna Nicola (Rafaella Marques) e deixa isso claro a ela, resultando daí relação mais que profissional entre ambos. Já Hitchcock (Chico Nogueira), reprime ao máximo seus desejos pela sua diva Blonde (Michelle Pucci , linda em cena), substituindo interesse carnal pelo máximo de apuro técnico em seus estudos.
Os diálogos passeiam por várias questões ligadas à essa repressão, cabendo a Nicola tergiversar sobre o que realmente importa, se a relação carnal e emocional ou apenas a existência intelectual, e se ambas não poderiam caminhar juntas. Ao mesmo tempo em que cede ao seu professor, discute com ele intelectualmente. Mas o que realmente lhe interessa é a emoção. Já o professor, embora tenha investido em sua aluninha e atingido o intento, tem muita curiosidade intelectual e quase segue os passos de Hitchcock para esquecer-se dos desejos e dedicar-se totalmente ao cinema.
A relação entre o mestre do suspense e sua atriz transcorre numa tensão extremamente delicada, em que Blonde se revela sensual e provocativa para Hitchcock empreender seus estudos fílmicos de luz, planos, análise de atuação etc, e o diretor, na dele (!), frio e sublimador.
A cena final, que o leitor pode conferir quando for ao ACT, simboliza e dá fechamento a toda essa riqueza de discussões.



HITCHCOK BLONDE
Quinta a domingo, 21 horas, mais esta semana, no ACT.