sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sobre política, do baú.

Revendo meus arquivos, achei esse texto meu dos tempos da polêmica do mensalão.

A ARTE DA BARGANHA

Enxergo a Política como uma arte. Ultimamente, estou lendo “A Política”, de Aristóteles, “A República”, de Platão, já li “O Príncipe” de Maquiavel há muito tempo, assim como “O Manifesto Comunista”, de Marx e Engels. Preciso ler “O Capital”, também de Marx, que, a despeito de ser uma crítica ácida e revolucionária ao capitalismo, é respeitado até pelos economistas de direita como uma análise precisa das relações sociais nesse sistema.
Como sou um ser de humanidades - estudo teatro, escrevo poemas, estudei comunicação – tenho obrigação de ler todas as obras importantes relacionadas à filosofia, à política e à sociologia. Confesso que comecei tarde – na faculdade tinha mais interesse em literatura, livros de comunicação, comerciais de televisão, filmes e jornais e revistas do que em ler obras fundamentais para o espírito humanista.
Pois então, dentro da minha parca aventura humanista nesta vida, e dentro do contexto atual de formação da sociedade, não vejo outro meio de desenvolvê-la se não pela política como arte. Eu falo da necessidade de teorizar as relações e depois humanizá-las e até espiritualizá-las. Hoje, acho que os governos deveriam ser compostos por profissionais de administração pública, sociologia, psicologia, direito etc, eivados de espírito político, e não apenas por políticos sem formação, que acreditam apenas nas conversas de bastidores.
Mas já que atuamos dentro do processo democrático de voto, elegendo as pessoas que nos governam, tenho que aceitar e analisar dentro desse processo. Pois bem: Fernando Henrique foi uma enorme decepção para mim. Apesar de não ter votado nele, esperava que o sociólogo de estirpe que é não fizesse apenas trabalho de base macroeconômico, favorável ao grande sistema, mas tivesse uma política social contundente.
E o PT foi a maior decepção política da minha vida. Um partido de base social e intelectual, agrupando prática sindical de peões com teóricos de universidade, que sempre discursou pela ética na política, de repente assume o poder e mimetiza-se dentro do corriqueiro do poder. Minha esperança de ver a arte da retórica social (mesmo que com os defeitos gramaticais do Lula, o que interessa aí é o conteúdo) ser transformada em ação, plantando o resultado de debates em busca da colheita na ação social, foi toda diluída por uma política suja e corrupta, igual às anteriores.
Concordo que todos os cidadãos devem participar politicamente para o progresso. A cada parafuso apertado, a cada cirurgia, a cada peça de teatro montada, a cada poema escrito, a cada defesa de réu, estamos agindo politicamente pela transformação. E devemos ir além. Eu, por exemplo, ainda sou apenas estudante de teatro, mas pretendo fazer no futuro ações voluntárias em hospitais de crianças, escrevendo e atuando em peças educativas e de diversão, para animar as crianças carentes e doentes.
Mas acho que isso só, o nosso lado, não basta. Precisamos de uma ordem política moralizada, gerida por governantes cônscios da necessidade do ideal, e não apenas da bravata. Ontem, vendo um pedaço do depoimento do Roberto Jefferson, me ficou claro que todos os políticos têm a consciência do processo todo carcomido, e mesmo assim se locupletam a partir dele, seja em doações de campanha ou em balcão de negócios no poder. Está ficando cada vez mais claro que o desejo dos que lá chegam é o de se perpetuar no poder não pelo prazer idealista de ajudar a sociedade a se transformar, mas pelo prazer de ter esse poder e receber mordomias.
Esperava, real e ingenuamente, que ex-guerrilheiros, ex-sindicalistas, acadêmicos etc tivessem senso de ideal para a mudança. Não, são mais do mesmo, são os novos meros artífices da arte da barganha.