domingo, 8 de março de 2009

Texto do Otávio

Quando entrei no Pé no Palco, uma das cenas que mais me fortaleceram a vontade agora eterna de fazer teatro, foi a do Otávio Linhares com a Sol Faganello, ambos interpretando o texto abaixo. Otávio é um grande ator, e como vemos, escritor-poeta.



Teatro: espaço de realizações. Realizar: perceber. Conceber a idéia de que há algo mais dentro de um mesmo espaço, de um ambiente, seja ele, físico, mental ou sentimental.
Lugar para percepção de idéias, de sentimentos, de fisicalidades.
Lugar para a recepção de idéias, de sentimentos, de fisicalidades.
Espaço para o simples jogo dialético do aprender e do ensinar. Espaço para viver.
Não há mais lugares para viver. Não há mais lugares para sentir.
O ser humano não sabe mais ser, humano.
Todo olhar se desvia; toda mão se fecha. Os corpos não mais se tocam!
Há um afastamento, um distanciamento, um alienamento das idéias, dos sentimentos, das fisicalidades.
Sinto uma necessidade, quase sonífera, de deixar o movimento embriagante de viver passar através do tempo.
O sonho, muitas vezes, nos transporta a lugares onde não existem dúvidas e, a embriaguez, constrói idéias e sentimentos que nos transportam da realidade física para o plano dos sonhos.
O encontro entre o sonho e o real é o lugar para onde viajam as imaginações, o sentir, o ser.
Costumou-se chamar este lugar de palco da vida; local das representações; espaço onde o homem encontra o homem para ser homem; antro de orgias.
Abreviou-se, simplesmente: Teatro.
Neste pequeno recinto a céu aberto, ou não; perambulante, ou não; com ou sem cenário, figurino ou música, há a evasão do tempo. Deixa-se de lado uma das maiores “conquistas” do homem: a construção do tempo. O tempo, em si, não existe. O homem o criou para poder se domar, para regrar o espaço, para tornar-se presa de si e não poder mais viver o mundo pelo mundo, mas, pelo tempo.
Nesta pequena ágora, atravessamos o espaço físico experimentando sensações, inventando formas de comunicação acientíficas e descobrindo, cada qual ao seu jeito, a humanidade a tanto perdida pelas civilizações.
Esqueça por um breve momento a teoria e a ciência, os teóricos e os cientistas, a positividade da vida moderna, e olhe para o chão onde pisa o ator. Sinta o cheiro deste lugar. Feche os olhos por um pequeno instante e veja aonde nos leva o prazer e o êxtase de pisar este solo sacro para os antigos e cultuado pelos novos.

Teatro: racionalidade e sentimento num mesmo espaço; controle e descontrole de emoções e abstração; psiquè e corpo em perfeita harmonia. Simples brincadeira. Lúdico e cúmplice; amante e amado; fogo e água; a demanda e a espera; o Diabo e cruz. Ator e platéia.
Daqui, cruzo olhar com inúmeros pares de sonhos e vejo a grande necessidade que brota de dentro do indivíduo de sentir melhor o mundo a sua volta, de não ter vergonha, de romper valores e limites, de não se limitar à vida.
Eu aprendi que o Teatro é a melhor representação da não-animalidade urbana do homem, ou seja, da sua animalidade natural, placentária, desprovida de quaisquer valores morais e éticos limítrofes que impeçam o seu desenvolvimento natural, enquanto tal.
Estar no palco é dar vida a crianças adormecidas.
Criança não vê em preto e branco, bidimensional, unilateral. Enxerga grande e gordo o mundo. Colorido.
Chuta poça d`água em dia de sol.
Na ponta do pé pula pra pegar o céu.
Guarda o infinito numa caixa de música, fecha os olhos e é... Criança / Teatro.
Acabado o espetáculo levamos para casa um pouco de cada coisa vista, ouvida e sentida, mas, também, deixamos sentimentos no ator que jogou com o público e ele, certamente, mudará a si próprio dentro do camarim retirando a maquiagem e voltando a ser, humano.
Neste palco muitos pés cresceram; neste palco muitas lágrimas secaram – de ator e de platéia; neste palco o Teatro foi apresentado a muitos pela primeira vez; neste palco muitos fincaram raízes para serem brasileiros; neste palco, vieram e foram; neste palco, prazer e dor; neste palco, desejo de terra e céu; neste palco, pé; neste pé, no palco.