segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

INDEFINIÇÕES

Eu, a bem da verdade, não tinha mais muitas esperanças de poder, abertamente, confessar, confidenciar a Maria Alice todos os meus pecados mundanos acumulados em mais de trinta anos de existência urbana. Aliás, não sei se podemos chamar a vida de um sujeito metido a escritor que vive em uma esfera introspectiva e cheia de neuroses, propriamente de existência urbana. Mas foi uma existência, se não solta pelos bares e festas de Curitiba (apenas solta pelos seus calçadões, que meus passos, embora raros e distraídos, conhecem como ninguém), suficiente para produzir todos esses pecados que me inibem diante de Maria Alice.
Pecaminosa mesmo a minha existência; caseira, mas cheia de crueldades. Todas as palavras que eu dizia - berrava - tentando convencer as paredes de que eu era o máximo em matéria de entendimento da alma humana (que parecem ter sido absorvidas por essas mesmas paredes e, hoje em dia, são refletidas, já que tanto me golpeiam quando da minha solidão domiciliar) são de uma crueldade e empáfia absurdas.
Maria Alice merece alguém menos pedante, mais autêntico, mais experiente. Sinto que meu universo descompassado não se coaduna com seu dinamismo. De que adiantam poemas e contos jogados em uma gaveta que impressionam sua sensível natureza, se a crueza das existências humana e urbana me são tão distante a primeira, tão imprecisa a segunda, e me é tão torturante a somatória inevitável das duas.
O problema, também, é que ela se deixou muito envolver por esse meu ser meio alienado, embriagado por fantasias literárias, e pouco enxergou a sua própria necessidade de um relacionamento real, maduro, com alguém que possa lhe oferecer aquilo que todas as mulheres, ou pelo menos a imensa maioria delas, deseja: segurança.
E, agora, tenho vergonha de confidenciar a ela toda a minha loucura, meus pecados mundanos que ultrapassam o mero criar artístico, derramando-se em minha mente de forma a produzir pensamentos por vezes escatológicos, por vezes, diria eu, muito incomuns, meio que beirando a total falta de lucidez, daí advinda minha estranha compulsão por conversar com as paredes, ao invés de telefonar para alguém conhecido e soltar as insanidades em um bar, com um copo de chopp temperando a noite.
Conversar com Maria Alice, hoje, é de uma dificuldade tremenda. Ela sempre me olha esperando comentários inteligentes (para ela) a respeito de algum livro ou algum filme, e eu não tenho como lhe dizer que não entendo nem de livros e nem de filmes, e que o que eu escrevo só tem valor estético para as traças do meu armário ou para aquele editor caquético que eu procurei e que gostou do meu “trabalho”. Já esgotei todo o meu arquivo mental de matérias jornalísticas que consumi das revistas especializadas, com as quais elaborava minhas impressões a respeito de certos assuntos que eu abordava nas nossas noites insones, deleitados pela única coisa na qual realmente combinamos, a capacidade de um dar prazer sexual ao outro.
Ah, se ela soubesse das minhas crueldades... Embora tenha eu toda essa auto-crítica em relação às peças literárias que minha mente produz, meus berros às paredes representam muito do que eu realmente sou. Grande parte dos fragmentos da minha vida são dominados por crises alucinadas de alguém que se acha “o incomparável”. E embora Maria Alice use sua sensibilidade para pensar também dessa forma, sempre tentando me agradar, não consigo enxergá-la como uma pessoa ilustrada, culta. Mesmo porque sei que estou distante das grandes inteligências.
Realmente muito estranha essa dicotomia em que vivo. Se lúcido, acho-me uma porcaria. Se tomado pelas alegorias inconscientes que se espraiam pela minha desprotegida mente, acho-me um grande homem, só comparável aos grandes mitos da história terrestre. São poucos os momentos como o presente, em que posso analisar friamente minhas idiossincrasias; em que posso concluir que, não obstante possuidor de uma certa tendência às artes literárias, não sou nenhum Joyce, nenhum Machado, nem um Pessoa.
Pois é. Não só não tenho coragem de revelar que passo muitos momentos fora de sintonia (já que os que ela presenciou não continham seu teor costumeiro), como também não quero magoá-la dizendo que tudo o que me liga a ela não passa de desejo sexual.
Às vezes penso que deveria haver alguma coisa nos seres humanos que revelasse aos outros, só pela aparência, o que se está pensando. Sei lá, se houvesse expressões faciais comuns a todos com diversos significados: “Te detesto”; “Porra, como você é chata e burra”; “Não gosto de você de verdade”; “Dá pra parar de me encher o saco?”; “Pombas, cala a boca e me deixa ver televisão”... Maria Alice seria informada dos meus pensamentos a respeito de sua burrice com um mero esticar de músculos faciais.
Mas é muito doloroso pensar em magoá-la, quanto mais exprimir de vez minha repulsa. E, se eu analisar bem, Maria Alice preenche meu tempo agradavelmente, mesmo que tenha lá sua insuficiência intelectual. Seria difícil encontrar uma mulher com todos os requisitos impostos pela minha forte e perfeccionista exigência, ou seja, alguém bela e sensível como Maria Alice, mas com uma inteligência que me faça navegar em mar brando, apaixonando-me. Uma mulher que não fique apenas embasbacada com o meu discorrer de idéias, que Maria Alice julga altamente erudito, mas que discuta e acrescente alguma coisa ao meu parco cabedal. (Essa modéstia toda e também a frequente mania de achar Maria Alice burra fazem parte da já citada dicotomia crônica que me persegue, julgando-me ora um bostinha, ora o máximo).
Difícil. Difícil chegar a um termo exato de atitude que simplesmente resgate do meu íntimo algo verdadeiro, equilibrado, definitivo. Difícil continuar percorrendo esta busca e julgando inferior alguém que me ama, tendo eu mesmo a dúvida sobre minha própria condição. E é desagradável também persistir com a mania de achar que tudo o que nos rege é a quantidade de inteligência ou, ao menos, conteúdo poético.
Ora, se Maria Alice parece-me burra, parece-me também muito sensível e dinâmica. Por que não tentar aprender com ela a ter essas qualidades (principalmente dinamismo, já que estou contente, pelo menos neste exato momento, com minha sensibilidade de estilista), e, de uma vez por todas, colocar-me aos outros e, principalmente, a mim mesmo como um profissional das letras? Por que não dar vazão a apenas um lado da minha dubiedade corrosiva e emergir definitivamente como um grande escritor-contemporâneo-pós-qualquer-merda que arrebata a crítica e a massa e que é o que há – assim como às vezes se acha – de melhor?
Aprender. Humildemente aprender com ela. Enxergar em Maria Alice alguém que me passe uma postura de auto-conhecimento. E tentar mostrar a ela, da melhor maneira que ela possa entender, alguém que sofre diante do desmazelo da própria consciência, que busca enfurecidamente por uma solução para incongruências causadas pelas suas deficiências. Enfim, mostrar-me de forma aberta e total.
Maria Alice, não é só sexo. Eu a amo.

by cláudio bettega, em tempos idos