quarta-feira, 21 de maio de 2008

SENTINELAS DA NOITE

Escondo do alcance dos seus curiosos olhos a escala dos sentinelas que vigiam meus segredos noturnos. Mas posso revelar-lhe que eles armam-se de espinhos e venenos – nunca armas de fogo, detesto-as, pois barulhentas. As defesas que agridem silenciosamente me são mais atraentes. E, também, além da rusticidade, espinhos – vários ! – e venenos têm um quê de teor sádico que me deixa excitado.
Então. Guardo-me assim à noite. Nada de estranhos querendo saber dos meus segredos, nem de estranhos querendo saber a respeito de quem guarda meus segredos. Acho o cúmulo ter que ficar dando satisfações das minhas coisas a certos parasitas doidivanas.
Quanto a qualquer crime que meus sentinelas possam vir a cometer com o uso, mais do que justo, das armas já citadas – paciência! Crime maior, aos olhos do meu julgamento e escala de ilibados valores, é a desmedida intromissão em vida alheia.
Morreu, compra-se caixão, chama-se a família, faz-se o velório, enterra-se. Aqui jaz uma pessoa extremamente inconveniente; passou a vida preocupando-se com a das outras pessoas e esqueceu-se de vivê-la. Na missa de sétimo dia, reza-se um Pai Nosso e pronto. A alma está limpa. Tanto a da criatura curiosa, quanto a minha que, através de sentinelas e espinhos e venenos, por uma causa nobre de defesa de segredos noturnos, cometeu pequeno crime.


by cláudio bettega, em tempos idos