segunda-feira, 2 de julho de 2007

BUSCA

Meu amigo ator, dramaturgo e acadêmico de letras Gabriel Dória Rachwal deu seu parecer sobre meu livro de poemas"Busca".



Sentimentos transbordam dos poemas. O aclamado poeta-engenheiro João Cabral de Melo Neto sofreria revoluções intestinais caso pudesse entrar em contato com os poemas de Cláudio Bettega. O eu aparece, sem rodeios, em algo em torno de 99% dos poemas. Sem medo de ser tachado de sentimentalóide o poeta coloca seu coração pra pulsar a menos de um palmo da fuça do leitor. O poeta não faz isso sem se defender, afinal é exposição demais em tempos ferozes como o nosso. Pra chorar e falar despreocupadamente hoje em dia, só mesmo marcando consultas psicoterapêuticas. A defesa que o poeta encontra é a auto-crítica. O livro está recheado de poemas que questionam o seu próprio fazer poético. É possível encontrar, até mesmo, um poema inteiro denegrindo a poesia:
"poesia vadia
pedaço de carne destroçada
detrito-excremento do intestino mental
pilha de palavras bagacentas (...)"
Outra característica dos poemas é trazer o leitor para perto do ato da criação poética. As rimas, muito presentes, vão embalando e fazendo a leitura ser fluida. No meio dessa fluidez o poeta fala sobre como faz, o que faz e para quê faz. Aqui vale a pena citar o poema inteiro, ele ilustra bem essa tensão entre expor-se e, ao mesmo tempo, defender-se:
"não estava muito a fim
de escrever um poema agora
mas a pena me chama
sentimentos me chamam
a vida me chama
para desovar verdades
sensações
vontades
expressar o que está escondido
feito pão amanhecido
transformar tudo em arte
poesia que faz parte
do movimento do mundo
do tempo
de cada segundo
abraçar a palavra
compor frases, versos,
desarmar a trava
de conceitos dispersos
plantar beleza
colher maravilhas
pra que enfim eu deixe
de me sentir uma ilha"
Os dois últimos versos explicitam/expõem o por quê escrever: o poeta quer se integrar, ainda que a sua maneira, ele busca uma integração. Não quer o estado de ilha e a escritura-catártica do poema parece aliviar o peso incômodo de se sentir uma ilha. Os demais versos falam do como escrever, é o poeta em sua oficina, expondo "o que está escondido". Somos levados a conhecer a intimidade do processo criativo. O poeta se faz acompanhar por seu leitor no ato de escrita. Ato este que sempre privilegia a livre intuição, o sentimento, o sentir, deixando de lado a razão. Um emblema dessa preferência é a negação de formas rígidas e dos metros, preferindo irmanar-se da tradição de poesia marginal. O que não nos impede de encontrar um soneto na página 68 e ver que o verso livre não é um dogma e que se o poeta achar que deve usar uma forma clássica, não verá problemas. As contradições que a razão pode detectar não são levadas em conta. "sentimentos me chamam" é o verso que lemos. Na página 34 temos um poema que começa de supetão: "vou derramar / a substância / da inconstância". Como vários outros, este poema começa rápido, tem rimas e fluidez, ninguém conseguiria dizer que é um poema racional. No entanto, lá pro fim do poema, parece que um lampejo de racionalidade afeta o eu-lírico que, por um instante, fica reflexivo e duas vírgulas quebram o ritmo embriagado do poema. Por três versos temos um questionamento racional: "e, enfim, nem sei porquê disse tudo isso aí" Voltando ao ritmo mais fluido o poema já dá uma possível resposta: "talvez para fazer poesia/ agora /aqui" Dada a resposta o livro segue em frente. Os obstáculos não têm força para cessar o surgimento de mais versos e poemas. Bettega é pura intuição. Seu senhor são as vontades e as pulsões. Por mais que haja rastro de imperfeição e a razão possa questionar, Bettega faz prevalecer a vontade. Os poemas eróticos mostram bem isso. Não há meias palavras, o desejo aparece com a força do presente do indicativo: "te penetro". É o desejo realizado em tempo real: no tempo da escrita, no tempo da leitura. Enfiar a cara no livro, seja pra ler, no caso dos leitores, ou para escrever, no caso de Bettega, é a chance de não ver a realidade a que um desses "anjos frustrados" (vide terceiro poema) nos destinou, e ter alguns bons momentos em meio às realizações que o papel permite.